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O objetivo deste blog é discutir idéias, expor pontos de vista. Perguntar mais do que responder, expressar mais do que reprimir, juntar mais do que espalhar. Se não conseguir contribuir, pelo menos provocar.

sábado, 28 de setembro de 2013

REIFICAÇÃO

Há um autor que é constantemente criticado pelo que produziu, pela maneira como falou a respeito da sociedade capitalista: Karl Marx. Este autor trabalhou com o conceito de Reificação. Para ele esse conceito denuncia a transformação de uma ideia em uma coisa, além de caracterizar a transformação das relações sociais em coisas que podem ser negociadas. Essa relação mercantil entre as pessoas é tida por Marx como uma forma de alienação, entendendo por alienação a dificuldade de a pessoa pensar por ela mesma. Em outras palavras, reificar é pegar uma ideia e torná-la um produto, essa crítica está justamente na coisificação do ser humano.

Partindo desse conceito de reificação, convido o leitor a pensar no atual modelo de vida em que muitos procuram ser um produto a ser comprado. Quando as moças se colocam em “panos novos”, vão às melhores casas de show e procuram pelos pretendentes com maior poder aquisitivo, elas estão reificando a si próprias. São pessoas que colocaram preço em si mesmas e se tornaram objetos de negócio, se colocam na vitrine e esperam a melhor oferta. Apenas para não ser unilateral, também se pode pensar no menino, que logo que possível compra roupas de marca, frequenta as melhores baladas, algumas vezes ao custo do salário do mês, sendo que todo o gasto com a aparência pode se reverter na “menina dos sonhos”, uma menina que se comprou com uma imagem irreal, sustentada a muito custo.

Não há crime em ser produto e se vender, assim como não há crime em escolher o melhor produto e comprar. A questão é que algumas pessoas se apresentam como produto e querem ser tratadas como gente. Se for vendido, é produto. O comprador também precisa ter em mente que como comprador deve honrar com seus compromissos: a menina comprada deve ser mantida. O menino que comprou tem obrigação de manter, se não tem para manter deve devolver ou repassar a alguém que possa manter. Duro? Não, muitas pessoas têm relação reificante onde se colocam como produto ou comprador. Em tempos atuais podemos perceber na TV, por exemplo, que, tanto produtos quanto compradores se espantam quando são colocados frente a si mesmos. O espanto está em perceber que já não são mais gente, são coisas que tem preço, não valor, mas preço sujeito a lei da oferta e da procura.

Mas, se a relação é boa, se comprador e produto se dão bem e entendem que é uma relação com prazo de validade? Sou eu que vou criticar, dizer que estão errados? Não! Devo apenas lembrar de que comprador (gente) e produto (gente) estão sujeitos ao mercado. Como filósofo digo apenas que Marx previa isso há muito tempo, previa que cedo ou tarde as ideias não seriam mais suficientes, pessoas se tornariam produtos vendáveis. Como lidar com isso? Caso tenha uma filha ou filho, você mesmo, pense um pouco em como está se comportando: como gente ou como produto? Algumas coisas fazem de você produto e lhe atribuem preço, outras características fazem de você gente e lhe dão valor.

Quando uma moça sai de casa para dançar, conhecer os meninos, namorar, e se posiciona diante dos meninos como gente, isso lhe dá valor. Quando a moça sai de casa para ir a uma festa para arrumar um bom partido, fica com quem tem mais ou pode lhe proporcionar o melhor, ela tem preço. O menino que gasta seu salário para ir na melhor balada e ficar com as meninas da classe X é comprador, tem preço. O menino que vai a uma festa de acordo com suas condições, conversa com as meninas, conhece e se aproxima de quem tem a ver com ele, esse tem valor. É apenas uma ilustração da diferenciação entre valor e preço, mas serve de reflexão. Pense se você está reificando a si mesmo como produto ou se dando valor.
 
 
Rosemiro A. Sefstrom - 25/09/2013 - Criciúma/SC
Fonte: http://www.filosofiaclinicasc.com.br/artigo/reificacao-244

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

VAI PRA "BALADA" OU PRO TRABALHO?

Transcrição do comentário de Max Gehringer para a rádio CBN do dia 25/09/2013: Um recalcitrante ouvinte escreve: "Sou gerente geral de uma agência bancária. Estou nela faz dois meses. Tenho duas funcionárias que insistem em se vestir para o trabalho como se fossem a uma balada: decotes pronunciados, saias curtas, saltão, etc. Como conversar com elas sem magoá-las ou causar mal estar, já que somos uma equipe pequena e não quero atrapalhar o bom convívio que todos possuem?"

Bom, parece-me que você mesmo já respondeu à sua pergunta. Então vou apenas aduzir alguns pitacos.

Se o banco possui um regulamento geral que especifique como as pessoas devem se vestir, a coisa é fácil. Basta você dizer às moças que "Sabe, eu não ligo, mas o regulamento não permite".

Agora, se o traje for livre, a situação é outra. E as perguntas a fazer são:

Primeira: os ditos trajes estão induzindo os demais funcionários a distrações que resultam em erros?

Segunda: o desempenho das funcionárias em questão é pior em relação aos colegas que, pela ótica gerencial, se vestem adequadamente?

E terceira: os trajes estão gerando críticas de clientes?

Se as respostas forem não, não e não, voltamos ao que você mesmo escreveu. O convívio entre todos é bom. E talvez seja bom exatamente proque cada um tem a democrática liberdade de se trajar de modo a se sentir bem. Os que usam ternos, como se fossem a um jantar de gala, não são criticados por isso. Como também não são as que parecem estar prontas para encarar uma balada.

Logo, não existe um problema. Existe uma concepção pessoal, que não faz diferença nos resultados e talvez até os torne melhores. Minha sugestão seria: relaxe e curta a paisagem.


Max Gehringer, para CBN - 25/09/2013

 

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

MASSAS ME DÃO AZIA


Quando se trata de falar o que efetivamente se pensa, não é fácil para algumas pessoas exporem seu ponto de vista quando este é contrário ao da maioria. Também é comum conhecermos os que não pensam nada, e que por vezes deixam que os outros, que nesse caso são também minoria, mas têm o carisma e a persuasão do discurso, os conduza da forma que estes bem desejam. Para contradizer precisa ter conteúdo, precisa construir um pensamento, e isso exige que o interlocutor não seja preguiçoso. Repetir palavras de ordem quando se está em um grande grupo é fácil, é legal, é estar na moda, e numa cultura onde o que os outros pensam e como o mundo me parece é predominante, percebo que às vezes fica-se falando sozinho.

Dia destes fui prova viva desta máxima. Tive a oportunidade de ouvir duas palestras onde os participantes eram o mesmo público: A maioria acadêmicos de uma universidade, e uma minoria líderes e gestores das empresas da região. A primeira, uma palestra onde o condutor soube usar de todas as formas e técnicas para prender a atenção de seu público, desde piadinhas maliciosas, trejeitos de um artista de stand up e até coreografias com o público para que no fim todos o aplaudissem de pé. E deu certo! Auditório lotado até o fim. Conteúdo? Não me perguntem, nem me recordo direito, mas de suas brincadeiras lembro-me de quase todas.

A segunda palestra, noutro dia foi de um professor, técnico no assunto, um cientista e pesquisador do tema. Sumidade. Falou por quase duas horas de seus estudos sobre o comportamento humano, sem birutices, sem piadas de duplo sentido, sem picadeiro, mas com um consistente conteúdo de pesquisa. O que aconteceu? O auditório foi se esvaziando durante a palestra. No momento que se seguiu as questões, algumas perguntas interessantes, mas a cada uma que se fazia mais e mais pessoas se levantavam e iam embora. Percebi que o lugar estava longe de ser um ambiente acadêmico onde o debate e discussão instigam os ávidos pelo conhecimento. Estes, os ávidos, uma pífia minoria.

Quando me deparo com situações como esta, tento ver o lado branco da força e lembro que as maiorias, a tal “massa”, produziram grandes feitos na história como os movimentos sindicais do início do século 20 que deixaram um legado de direitos que regularam, por exemplo, nossas relações trabalhistas. A redemocratização do país na década de 80 também é fruto dos movimentos populares. Porém volto a lembrar de que a maioria quis Cristo crucificado em Jerusalém, chamou Galileu de herege em Roma. A maioria Alemã venerou Hitler em sua época, e dentre estes, outros tantos creem firmemente que o holocausto não existiu. Por fim observo que é esta mesma maioria que reclama da corrupção, mas reelegem ‘fichas sujas’.

Vou parar por aqui e me consolar com a minoria mesmo, até porque não há de se conseguir elevar o nível do debate no padrão de educação a que nos acostumamos, mas é exatamente por situações assim que massas me dão azia.
 
Por André Topanotti - 16/09/2013 - Criciúma/SC

domingo, 15 de setembro de 2013

AS LÓGICAS NÃO SE CONHECEM


A lógica existe para aqueles que a conhecem. Quando as fronteiras são estabelecidas, a lógica prevalece. Por diferentes razões, vence ou perde os que ‘desconhecem’ as fronteiras da derrota. Os limites estão na mente do homem e a derrota se encontra no despreparo para conquistar a vitória. Conhecer as fronteiras e pular os muros como uma criança descontraída, para com o troféu nas mãos voltar para casa sem o desconforto da incompetência proferida antecipadamente.

Falo sobre o Criciúma E.C.  Foram colocados como objetivo, 23 pontos para o final do primeiro turno do Campeonato Nacional e a vitória contra o time do Botafogo desceu pelo ralo do esgoto. Novamente dissemos em ar de profecia que um empate contra o time do Bahia já seria muito bom,  e deixou-se de ser somados dois pontos na tabela de classificação.

Queremos um Tigre vitorioso, vibrante como a sua torcida. Talvez a direção do Clube esta se perguntando o que mais fazer?  A vitória se encontra no início e não no final. Os vitoriosos bebem água para satisfazer a sede e os derrotados bebem água para não morrer de sede.  O Criciúma tem um invejável reservatório de água, porém esta bebendo água para não morrer de sede.

Direção, Comissão Técnica e Atletas devem tomar conhecimento destas verdades. É um trabalho a ser feito dentro do Clube. Caso contrário a Segunda Divisão esta de portas abertas.
Lógica? O que é lógica? Elas não se conhecem. Ganha que está preparado.


Por Antônio Topanotti - Criciúma/SC - 14/09/2013

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

AS RAÍZES DO ROMANTISMO

O mundo, às vezes, pode parecer um lugar assustador. Um lugar onde não conseguimos ver espaço para nossa vida. A alma, então, fica ofegante, sem ar, buscando um lugar onde o horror não seja a regra.

Esse lugar pode ser um mundo invisível, o passado, um paraíso, a pessoa desejada, ou, o que às vezes é a mesma coisa, um outro inferno, como o mundo, ainda que feito da substância dos pesadelos. Quando esse terreno encontra gênios literários, o horror pode virar beleza.

A descrição acima está muito próxima do que o filósofo judeu britânico Isaiah Berlin (século 20) pensava da Alemanha (ainda que neste momento a Alemanha não existisse como unidade política) dos séculos 17 e 18, devido as terríveis guerras religiosas entre católicos e protestantes, "a Guerra dos 30 Anos".

O resultado foi uma Alemanha devastada e reduzida à "Idade Média". Enquanto França e Inglaterra nadavam de braçada em direção à modernização burguesa industrial, os alemães se afogavam no ressentimento e na melancolia. Nascia o romantismo. Essa Alemanha foi seu o berço.

A historiografia marxista costuma dizer (com razão) que o romantismo é a primeira grande ressaca da Europa com a modernização burguesa. A tese de Berlin não nega este fato, mas ilumina elementos sutis com relação aos afetos românticos.

A modernidade é bipolar. Quando acorda bem, é iluminista, científica e progressista, assim como nós quando acordamos acreditando em nossa capacidade de produzir o sucesso material em nossas vidas. Mas quando ela acorda mal, é romântica, ciente da hostilidade do mundo e em dúvida com relação à capacidade de sua grande criação, o iluminismo racionalista e técnico-científico. Assim como nós quando acordamos em meio a madrugada sentindo a solidão de quem investiu a vida em dinheiro, profissão e sucesso material às custas dos vínculos afetivos pouco eficazes.

Mas, se o romantismo é mal-estar com o mundo burguês, ele é também fruto do mesmo mundo burguês e sua esperança na capacidade do indivíduo criar sua própria vida e sonhar com um futuro que seja autêntico e livre de convenções limitantes. O romantismo é antes de tudo uma afetividade angustiada com um mundo que nega aos homens e mulheres sua espontaneidade. Uma espontaneidade recém-adquirida graças à liberdade moderna.

Em março e abril de 1965, Berlin deu um série de conferências na National Gallery of Art em Washington, EUA, como parte do programa conhecido como The A. W. Mellon Lectures in the Fine Arts. Estas conferências foram publicadas em 2001 com o título "The Roots of Romanticism", Princeton University Press, organizadas pelo editor da obra de Berlin, Henry Hardy. São quatro conferências imperdíveis tanto para os interessados no romantismo quanto para os interessados no pensamento do próprio Berlin.

O romantismo é um grande ataque ao iluminismo e sua fé na eficácia e na ciência da razão. Por isso, na segunda das conferências, Berlin identifica no pietismo alemão do século 17 a grande matriz romântica e não nos delírios das caminhadas do solitário Rousseau. Os pietistas eram de classe média baixa, homens de letras, que liam a mística alemã medieval, principalmente autores como o místico do século 14 Meister Eckhart.

Os pietistas viam o mundo como um lugar tomado pelos horrores do mal e por isso fugiam para o campo, viviam em silêncio, estudavam, e por isso mesmo tinham uma vida interior de enorme força e violência. A vida como drama, e não como "uma agenda" (como viam os iluministas). Em especial, o teólogo e poeta pietista J.G. Hamann (1730-1788), amigo pessoal de Immanuel Kant, lerá o conceito de "Abgrund" ekhartiano, entendido pelo medieval como "abismo sem fundo" de uma alma que se descobre feita da matéria de Deus, como sendo a realidade de uma alma obscura e misteriosa que não cabe na razão, mas que é presa num mundo que não é sua casa. O exílio no mundo é a marca deste "mago do Norte", como ficou conhecido.

O romantismo nos legou esse sentimento sem cura de que criamos um mundo no qual não nos reconhecemos.


Por: Luiz Felipe Pondé - Folha de SP - 09/09/2013

terça-feira, 3 de setembro de 2013

PREGUIÇA DE TER RAZÃO

Eu adoraria dizer que é maturidade, mas é preguiça mesmo. Uma falta de vontade crônica que os mais precipitados julgariam depressão. Não! Estou convencida de que é minha baianidade concentrada e saindo pelos poros… devagar para não cansar, claro! Curioso? Calma, não se apresse. Ouvi dizer que stress dá câncer!

Já tem um tempo. Começou com silêncio imperioso num momento em que meu natural seria falar. Depois uma briga que não houve pela simples falta de vontade de argumentar. De pouco a pouco aquela pessoa que dava tudo para entrar (e ganhar) a discussão foi deixando pra lá esta gana de ter razão. Guardo minha certeza no cantinho dela enquanto contemplo meu interlocutor vociferar. Ele vai sumindo naquele embaçar que preenche os olhos de quem tem o cérebro a desligar e viajar. O sobressalto e a pausa dão o tom de final, a deixa para minha suposta réplica, tréplica… em que parte mesmo estávamos?

Aí um sorriso plácido esboço e um aceno calmo evoco para acabar logo com aquilo. “Ok, você tem razão”, seria um bom ponto final, mas é incrível como as pessoas não se contentam com a paz. Querem sangue. Mas ando com preguiça. Já fui mais de querer toda razão e não me dava por satisfeita até que minha soberania não reconhecida fosse. Hoje, só quero ser feliz e ter sossego, sem convencer de nada, ninguém. Será que estou adoecendo? Sinceramente? É só preguiça mesmo. Acho que estou é envelhecendo.


Por Fabiana Bertotti - 13/07/2013


sexta-feira, 30 de agosto de 2013

DORES EXISTENCIAIS


Vivemos numa época em que as dores são consideradas como ruins, uma dor é algo a ser debelado. Antigamente quando uma criança cortava o dedo, era tratada com Merthiolate e Mercúrio Cromo. Um dos desafios às mães era convencer a criança a se deixar medicar, pois eram medicamentos que causavam dor. Geralmente a mãe dizia: “Fica quieto, se dói, cura”. Atualmente o medicamento já não causa mais dor, a fórmula foi alterada de maneira que a aplicação seja indolor. Quando não se tinha Merthiolate utilizava-se álcool ou até mesmo a velha e boa cachaça com arnica. Aqueles que passaram por estes tratamentos devem lembrar que era bastante doloroso a aplicação destes medicamentos sobre a ferida. Era também uma época em que a criança tinha desde cedo uma participação forte na família, em muitos casos com tarefas como alimentar os animais, varrer o pátio, capinar a horta. As dificuldades da família eram partilhadas, não se “tapava o sol com a peneira” para que a criança não sofresse.

Esta postura menos polida, dito por alguns, mas realista, era a maneira que as famílias antigas tinham para preparar suas crianças para a vida. Eram crianças, hoje adultos, que desde cedo percebiam que na vida passar por algumas dores era algo absolutamente normal e natural. Sabiam que depois de um dia capinando as mãos teriam bolhas e estas provocariam dores; com o tempo e o trabalho a pele da mão engrossava e já não fazia mais calo. Não se pode dizer que era algo agradável, bom, desejável, mas era algo pelo qual era necessário passar. Colaborar com a família passava pela dor do trabalho físico.

Existencialmente as coisas não são muito diferentes: existem dores que precisam ser vividas para que nos façam mais fortes. Imagine uma mocinha que arruma um namorado. Pelos acasos da vida seu relacionamento não funciona e ela sofre. Sua mãe, por temer o pior recomenda um remedinho para aliviar essa dor ou leva a filha às compras para esquecer. O que esta mãe está fazendo? Muito provavelmente está evitando que a filha crie resistência, que aprenda com o que aconteceu, que vivencie de maneira produtiva aquela dor existencial. Sofrer por sofrer não é recomendável, mas eliminar todo o sofrimento também não é produtivo.

Em alguns casos uma depressão pode ser o melhor remédio que uma pessoa encontrará para muitos dos males. Em um de meus atendimentos ouvi o seguinte: “Eu estava em depressão, estava triste, não queria conversar e as pessoas diziam que eu não tinha motivo para estar assim. Eu sabia, mas quanto mais elas me diziam, mais depressiva eu ficava. Eu estava vivendo minha depressão, era um momento que eu precisava viver. Depois que vivi segui em frente”. É interessante perceber que viver uma dor existencial não significa ser masoquista, mas viver a consequência de uma série de fatores que podem ser ruins agora, mas serão muito bons no futuro. Na primeira vez em que se vai à academia ao fazer exercícios os músculos doem, e é sinal de que os exercícios estão fazendo efeito.

Uma pessoa que usa dispositivos para anestesiar uma dor pode pouco a pouco aumentar a dose para uma dor que é, aparentemente, cada vez maior. Algumas pessoas ao anestesiar suas dores também anestesiam seus prazeres. Correm o risco de chegar num tempo em que não sabem mais o que é dor ou prazer, ou seja, ficam anestesiadas para a vida.



Rosemiro A. Sefstrom - Criciúma/SC - 22/08/2013.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

FORMADO, MAS PERDIDO. QUE FAÇO?

Um ouvinte escreve: "Preciso ouvir alguma coisa, mesmo que eu não goste do que possa ouvir. Minha situação é a seguinte: tenho 29 anos de idade e 6 de carreira profissional. Sou formado em Direito, profissão que nunca exerci. Concluí também três cursos de gestão e me comunico em inglês com suficiência. Até aí, tudo ótimo. Só que trabalho em um serviço de atendimento ao cliente, numa baia minúscula, ganhando 800 reais por mês. Não consigo entender como posso, a essa altura da vida, estar em uma função que poderia ser desempenhada por alguém dez anos mais novo do que eu e sem um quinto da formação que eu tenho. Eu devo ter feito alguma coisa errada, mas não sei o quê. E pior, não sei que rumo tomar."

Vamos lá. Creio que três fatores possam explicar um caso como o seu. Eles são: azar, perseguição e acomodação. Pode ser azar? Até pode, mas duvido que seja. Poderia ser perseguição? Talvez, mas não num período tão longo como seis anos. Sobra então a acomodação.

Muito provavelmente não uma acomodação proposital, mas uma construída em cima de uma otimista premissa: de que se as coisas não aconteceram quando deveriam ter acontecido, basta fazer mais alguns cursos para que, em algum momento, surja uma oportunidade que irá mudar tudo.

A sugestão que posso lhe dar é não continuar esperando que o destino providencie uma solução. Ficar trocando de emprego não irá resolver. E fazer mais cursos, também não. Você precisa ser pró-ativo, assumir a sua própria causa e correr os riscos que evitou correr até agora. A boa notícia é que você ainda tem tempo suficiente para dar uma virada na vida profissional, desde que comece já.


Max Gehringer, para CBN.


domingo, 25 de agosto de 2013

RASCUNHOS DO CONARH 2013 - CAP 1


Entre os dias 19 a 22 de agosto foi realizado o CONARH 2013 – Congresso Nacional de Gestão de Pessoas em São Paulo no Transamérica Expo Center. Alguns dos maiores profissionais, pesquisadores e estudiosos debateram e compartilharam seus conhecimentos neste que sem dúvida é o maior encontro de profissionais de RH da América Latina. Os trabalhos foram abertos pela presidente nacional do sistema ABRH Sra Leila Nascimento. Dentre as principais palestras que este bloggeiro pôde participar, e que neste artigo pretende abordar sinteticamente, Alexandre Silva - Presidente Embraer e Wilson Ferreira Jr - Presidente CPFL Energia foram os protagonistas da palestra Magna de Abertura. Abordaram temas como os cenários econômicos e suas conexões com o mundo do RH. 

O maior desafio citado por Alexandre Silva - Presidente Embraer é de que, em um cenário onde temos uma Europa estagnanda, uma nação como o EUA crescendo pouco, uma China investindo em armamento e comida e o PIB Brasileiro crescendo entre entre 1,1 e 2%, eis o desafio: “Como inspirar pessoas para fazer diferente?” Precisamos nos incomodar com o “sub desenvolvimento satisfatório", semelhante aquele filho que passa sempre com a nota 6.  Precisamos definitivamente ter maior produtividade, e sabemos que isto passa pelo caminho do desenvolvimento pessoal e da inovação.

Na mesma palestra/debate, Wilson Ferreira Jr - Presidente CPFL Energia foi enfático ao citar que os programas de meritocracia não estão sendo bem geridos nas empresas. Meritocracia é reconhecer o desempenho excelente, disse Wilson. Provocou ainda perguntando: Vocês sabem o custo da não qualidade de sua organização? 

Ao final Alexandre Silva encerrou a magna da tarde cito que Financeiro e RH dão o tom do sucesso ou do fracasso da empresa.

<!--[if !vml]--><!--[endif]-->Na mesma tarde Rosa Maria Fischer Professora da USP/FEA desenvolveu o painel Leitura de Cenários – Uma Competência Essencial para o Profissional de RH. Iniciou contextualizando que as pessoas se desenvolvem de dentro para fora e que se queremos desafiar o crescimento precisamos inovar, e para haver inovação precisamos despertar “o outro” para o desenvolvimento. Os manuais de administração são muito repetitivos e cheios de certezas. Porém, a  certeza é a inimiga da reflexão, disse Rosa Maria citando Maturana. Se tivermos muitas certezas, bloqueamos a reflexão. Ainda sobre a criatividade e inovação Profª Rosa disse que a principal inovação para as organizações são as pessoas se inovando, mas é preciso dizer que a inovação vem da liberdade de poder se manifestar.  Não existe Inovação onde existe o medo da punição e da censura, mesmo que branca, envolta na praga organizacional do “politicamente correto” (grifo e interpretação deste bloggeiro). 

Em se tratando de interpretações, um determinado cenário só tem sentido, se sua realidade fizer sentido para mim. Cenários serão interpretado de acordo com a realidade percebida, de acordo com a informação recebida, disse a professora. Encerrando, profª Rosa Maria provocou os educadores a juntarem emoção e razão para que os processos de aprendizagem façam de fato diferença para as pessoas. É preciso que alunos compreendam técnica junto com algo que marque com significância o aprendizado, para que este possa de fato ter eficácia no desafio de impulsionar as pessoas à mudança e a inovação. Por fim, concluiu citando um pensamento a respeito do "Ser" e sua mudança: “Nós somos o que fazemos. Mas principalmente o que fazemos para mudar o que somos”.
Por enquanto, é o que se tem a compartilhar. Nos próximos dias, mais novidades e ideias interessantes do CONARH 2013 neste blog.

Paz e virtude!
Por ANDRÉ TOPANOTTI - Criciúma/SC - 25/08/2013

sábado, 24 de agosto de 2013

AS CIDADES (urbs)


"Antigamente a cidade, urbs, era o lugar que pensava e que falava, que tinha o verbo e a luz. Roma criou a justiça. Atenas idealizou a carne. Jerusalém crucificou a alma.
 
Por isso Roma caiu, os porcos enlameiam os restos de Atenas e os cães uivam no silêncio de Jerusalém."
 
Eça de Queirós

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

POUPANDO DESDE CEDO

Comentário de Mauro Halfed para CBN dia 12/08/2013, com um exemplo de como o tempo aumenta, e muito, o montante final dos investimentos, por causa dos juros compostos:

Hoje eu vou comentar um exemplo hipotético de duas irmãs gêmeas: Adriana e Bruna.

Adriana começou a trabalhar cedo e iniciou uma poupança de longo prazo quando tinha 20 anos. Investiu 3 mil reais todos os anos, obtendo um rendimento líquido de 5% ao ano acima da inflação, durante 30 anos. Com 50 anos de idade, Adriana parou de fazer depósitos e deixou o dinheiro rendendo com a mesma taxa de 5% ao ano, até fazer 60 anos de idade.

Por outro lado, a irmã, Bruna, preferiu aproveitar a juventude e só começou a fazer a poupança de longo prazo quando tinha 30 anos. Acabou fazendo o mesmo esforço da irmã Adriana: ela depositou todos os anos os mesmos 3 mil reais, durante 30 anos, obtendo o mesmo rendimento de 5% ao ano acima da inflação.

Quando as duas irmãs gêmeas fizerem 60 anos, qual será o capital de cada uma delas? Resposta: Adriana, aquela que começou a poupar cedo e parou com 50 anos, deixando o dinheiro rendendo mais dez anos, vai ter 324 mil reais além da correção da inflação. Já a Bruna, que começou a poupar dez anos depois, fez o mesmo esforço de juntar dinheiro durante trinta anos, acumulou bem menos: 199 mil reais.

324.000 contra 199.000. Perceba que o esforço feito pelas duas irmãs é exatamente o mesmo: 30 anos de poupança. Qual que é a diferença? A diferença é que Adriana começou aos 20 e parou aos 50 anos. A Bruna começou aos 30 e parou aos 60.

As duas irmãs depositaram a mesma quantia: 90 mil reais. Mas aqueles dez anos finais lá, quando Adriana deixou o capital rendendo, fizeram então uma grande diferença para o saldo final da Adriana. Ela tem 324 mil no final, enquanto que a Bruna 199 mil.

Moral da história: vale a pena começar a juntar dinheiro bem cedo. Naquela fórmula dos juros compostos, tempo é um fator chave. Esse fator aumenta demais o montante final que vai ficar no bolso do poupador.

Mauro Halfeld, para CBN - 12/08/2013.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

A ESPIRITUALIDADE DAS PEDRAS

Meu Deus, como ter um "eu" cansa! Os místicos têm razão. Não é necessário ser um "crente" para ver isso, basta ter algum senso de ridículo para ver o quão cansativo é satisfazer o "eu". E a modernidade é toda uma sinfonia (ou melhor, uma "diafonia", contrário da sinfonia) para este pequeno "eu" infantil.
 
Outro dia, contemplava pessoas num aeroporto embarcando para os EUA com malas vazias para poder comprar um monte de coisas lá. Que vergonha. É o tal do "eu" que faz isso. Ele precisa comprar, adquirir, sentir-se tendo vantagem em tudo. O "eu" sente um "frisson" num outlet baratinho em Miami. O mundo faz mais sentido quando ele economiza US$10. E o pior é que, neste mundo em que vivemos, faz mesmo sentido. Qualquer outra forma de sentido parece custar muito mais do que US$ 10.
 
A filosofia inglesa tem uma expressão muito boa que é "wants", para se referir a nossas necessidades a serem satisfeitas. Poderíamos traduzir de modo livre por "quereres". O "eu" é um poço sem fundo de "wants". Isso me deprime um tanto. Como dizia acima, a modernidade é toda feita para servir ao pequeno autoritário, o "eu": ele exige mais sucesso, mais autoestima, mais saúde, mais dinheiro, mais beleza, mais celulares, mais viagens, mais consumo, mais direitos, mais rapidez, mais eficiência, mais atenção, mais reconhecimento, mais equilíbrio, melhor alimentação, mais espiritualidade para que ele não se sinta um materialista grosseiro.
 
Outra demanda do "eu" que enche o saco é querer se conhecer. Você conhece coisa mais chata do que alguém que tira um final de semana para fazer um workshop de autoconhecimento e aí vai para jardins "fakes" na Raposo? E pior, quem tira seis meses para se conhecer depois dos 40 anos e acha legal? O autoconhecimento só é sério quando deságua em autoironia.
 
O império do "eu" se revela quando vivemos pela angústia de torná-lo "resolvido". Nada é mais típico dessa angústia estéril do que alguém sempre atento às próprias dores. Outra armadilha típica do mundinho do "eu" é a idolatria do desejo. A filosofia sempre problematizou o desejo como modo de escravidão, e isso nada tem a ver com a dita repressão cristã (que nem foi o cristianismo que inventou) do desejo. Problematizar o desejo tem mais a ver com um conhecimento sutil, fruto da experimentação que a realização do desejo sem idealizá-lo traz. A idealização do desejo é marca da condição adolescente ou reprimida.
 
O "eu" falante inunda o mundo com seu ruído. O "eu" mais discreto tece um silêncio que desperta o interesse em conhecê-lo. Mas hoje vivemos num mundo da falação de si, como numa espécie de contínuo striptease da alma. O corpo nu é mais interessante do que a alma que se oferece. Por isso toda poesia sincera é ruim (Oscar Wilde). O "eu" deve agir como as mulheres quando fecham as pernas em sinal de pudor e vergonha.
 
A alta literatura espiritual, oriental ou ocidental, há muito compreende o ridículo do culto ao "eu". Uma leveza peculiar está presente em narrativas gregas (neoplatonismo), budistas (o "eu" como prisão) ou místicas (cristã, judaica ou islâmica). Conceitos como "aniquilamento" (anéantissement, comum em textos franceses entre os séculos 14 e 17), "desprendimento" (abegescheidenheit, em alemão medieval) e "aphalé panta" (grego antigo) descrevem exatamente esse processo de superação da obsessão do "eu" por si mesmo. A leveza nasce da sensação de que atender ao "eu" é uma prisão maior do que atender ao mundo, porque do "eu" nunca nos libertamos quando queremos servi-lo. Ele está em toda parte como um deus ressentido.
 
Por isso, um autor como Nikos Kazantzakis, em seu primoroso "Ascese", diz que apenas quando não queremos nada, quando não desejamos nada é que somos livres. Muito próximo dele, o filósofo epicurista André Comte-Sponville, no seu maior livro, "Tratado do Desespero e da Beatitude", defende o "des-espero" como superação de uma vida pautada por expectativas.
 
Entre as piores expectativas está a da vida eterna. Espero que ao final o descanso das pedras nos espere. Amém.
 
Por Luiz Felipe Pondé - Folha de SP - 29/07/2013 
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/2013/07/1318206-a-espiritualidade-das-pedras.shtml

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

EMPRESA EM GRANDE CRISE: "PULO" FORA?

Transcrição do comentário de Max Gehringer para a rádio CBN, do dia 06/08/2013:
 
"Trabalho em uma empresa que foi de uma sinceridade até inesperada, para conosco. Fomos avisados de que a situação financeira da empresa é ruim e que uma concordata não estaria fora de cogitação. Por isso, a empresa sugeriu que quem recebesse uma proposta para sair, deveria aceitá-la.

É claro que por um lado ficamos gratos por essa transparência. Mas, por outro lado, estamos apavorados com a possibilidade de ficarmos na rua da amargura de um momento para outro. Imagino que a melhor solução seria procurar outro emprego, que é o que todos nós estamos fazendo. É isso mesmo?"


Bom, não necessariamente. Eu separaria os funcionários em dois tipos, bem diferentes. Existem aqueles que já começaram a ter insônia e não conseguem mais se concentrar no trabalho. Esses devem sair o mais rápido possível.

Mas também existem aqueles que são um pouco mais otimistas e pensam o seguinte: uma concordata não é uma falência. Muitas empresas já passaram por essa situação e acabaram saindo dela saneadas e fortalecidas. E quando isso acontece, aqueles que acreditaram e ficaram, geralmente conseguem dar um salto na carreira que não dariam em uma situação de normalidade.

Além disso, ficar irá acrescentar ao currículo uma qualidade que será muito apreciada em futuras entrevistas: a de não abandonar o barco quando a empresa mais precisa de suporte de seus funcionários.

Minha sugestão é que você não saia em disparada somente porque todos estão debandando. Avalie se você terá condições psicológicas para suportar esse período de incerteza. Se tiver, eu recomendo que você fique.


Max Gehringer, para CBN - 06/08/2013.
 

terça-feira, 6 de agosto de 2013

O OUTSIDER FRANCISCO, O LEITOR DE DOSTOYEVSKI

Na foto ao lado está Jorge Bergoglio, no portenhíssimo “subte” (metrô) da linha A em 2008. Meia década antes de ser Francisco.
Direto. Outsider. Este é Jorge Bergoglio, um portenho do bairro de Flores que poucos dias antes de tornar-se o papa Francisco em Roma pegava o metrô em Buenos Aires como qualquer habitante da capital argentina. Ao aparecer na sacada da basílica de São Pedro, em seu primeiro discurso mostrou outra característica – o humor – ao afirmar que os cardeais “haviam ido buscá-lo no fim do mundo”, em alusão aos confins meridionais onde está localizada a Argentina.

Nas horas seguintes ficaram claras outras características do novo santo padre, quando os telespectadores em todo o mundo viram o anel de prata (em vez de ouro) na mão. No peito, uma cruz de prata escurecida pela ferrugem. Nos pés, os sapatos pretos portenhos que levou à Roma com seu clergyman de jesuíta e que agora despontam por baixo dos brancos hábitos de sumo pontífice.

Leitor do autor russo Fiódor Dostoyevski, fã e amigo do escritor argentino Jorge Luis Borges, Bergoglio, é adjetivado de “sóbrio” e “frugal” por seus mais fiéis colaboradores. No entanto, seus inimigos preferem defini-lo como “calculista”, “frio”, “traiçoeiro” e “autoritário”.

Aqueles que o conhecem bem sustentam que só mostra intensa paixão quando fala de Fiodor Dostoyevski, seu escritor preferido. “É um jesuíta até a medula. Ele fala pouco. Ouve o dobro do que fala. E pensa o triplo do que ouve”, disse ao Estado um ex-embaixador argentino em Roma. O diplomata sustenta que jamais desejaria ter Bergoglio como inimigo. Com ironia, explica: “Quem vive, como Bergoglio, só à base de frango cozido e verduras, só pode ser um cara perigoso…”.

Mas, para os argentinos, Bergoglio é o novo ídolo. As pesquisas indicam que mais de 75% dos habitantes do país simpatizam com ele, inclusive os integrantes de outras religiões e os ateus. Sua imagem é vendida em posters, figurinhas e stickers.

Bergoglio é idolatrado pelo clero jovem argentino que aprecia sua proximidade com o povo. Quando morava na cidade, o cardeal mantinha conversas com os portenhos enquanto se deslocava em metrô ou ônibus. Seus admiradores afirmam que o fazia “para estar perto do povo”. Os críticos sustentam que era “puro populismo”.

Os parlamentares da esquerda, que se confrontaram com freqüência com Bergoglio por questões como a legalização do aborto, o definem como “o pior dos inimigos, porque é um inimigo muito inteligente”. No entanto, o cardeal também os desconcerta ao realizar furiosos ataques contra o neoliberalismo.
Fiódor Dostoyevski, escritor russo, é o autor preferido do novo papa.

GESTOS - O sociólogo Alberto Quevedo, da Faculdade Latino-americana de Ciências Sociais (Flacso) ressalta que nos últimos meses que Francisco fez uma série de pequenos gestos muito bem calculados, desde pagar a conta do hotel após ser eleito papa; alternar o italiano e o latim em sua primeira missa; e sua decisão de se locomover em um jipe branco em vez do papa-móvel blindado utilizado por seus dois antecessores.

Diversos vaticanólogos afirmaram nos últimos meses que estes gestos de Francisco poderiam debilitar o poder simbólico da Igreja Católica, já que aproximam o papa da população. No entanto, Quevedo argumenta que a estratégia utilizada por Bento 16 de “aproximar-se de Deus e afastar-se do mundo terrenal foi um fracasso. O problema é que o catolicismo disputa o terreno com figuras do cristianismo que tentam estar com o povo na Terra sem tanta solenidade na doutrina”.

QUÍMICO E JESUÍTA – Filho de um imigrante italiano, o ferroviário Mario Bergoglio e de uma neta de imigrantes da Itália, Regina Sívori, Jorge Mario Bergoglio nasceu no dia 17 de dezembro de 1936 em uma área conhecida como “Bonorino”, dentro do bairro de classe média de Flores, em Buenos Aires. Foi batizado no natal daquele ano. Dos quatro irmãos que teve, uma ainda está viva, Maria Elena Bergoglio, que decidiu não viajar ao Brasil ver seu irmão durante a JMJ para não atrapalhar sua atarefada agenda.

Desde criança, foi torcedor fanático do time de San Lorenzo, fundado por um padre no início do século. Mas nunca pôde aspirar a jogar futebol além da praça do bairro. Seu físico, quando adolescente, era franzino. Aos 20 anos, passou por uma operação que implicou na retirada de uma porção de um de seus pulmões.

Sua juventude transcorreu em Flores e nos bairros vizinhos, onde saía com os amigos e apreciava dançar o tango. Ele ainda ouve os tangos de Carlos Gardel, Julio Sosa, Ada Falcón e Azucena Maizani (a quem administrou a extrema-unção em 1970).

Em 1957 formou-se como técnico químico. De forma quase simultânea Bergoglio entrou como noviço para a Companhia de Jesus, ordem caracterizada por sua obediência e disciplina ascética que historiadores preferem definir como militar. Em 1969 foi ordenado sacerdote, aos 33 anos. Aos 36, em 1973 já era o comandante dos jesuítas na Argentina.

Nos anos que se seguiram – o período 1976-83, a ditadura militar argentina –, é um período da vida de Bergoglio com controvérsias. O jornalista investigativo argentino Horacio Verbitsky, do jornal ”Página 12″, sustenta que ele colaborou ativamente com a última ditadura (1976-83), delatando os jovens sacerdotes, que foram seqüestrados pelos militares. No entanto, dois referenciais mais à esquerda de Verbitsky, o frei brasileiro Leonardo Boff e o Nobel da Paz de 1980, o argentino Adolfo Pérez Esquivel, negam as acusações e sustentam que Bergoglio não delatou sacerdote algum. Na contra-mão, teria ajudado discretamente vários perseguidos políticos a escapar do país.

Nos anos 80 Bergoglio foi estudar na Alemanha. Ao voltar à Argentina teve uma atividade acadêmica e pastoral low profile. No entanto, em 1992, o poderoso cardeal Antonio Quarracino o convocou para ser seu bispo auxiliar em Buenos Aires. “É um jesuíta sereno e preciso. Ele tem uma capacidade e uma velocidade mental fora do comum”, comentou na época.

CARDEAL - Após ter consolidado seu espaço dentro da Argentina Bergoglio deu um salto internacional em 2001, quando ocupou o posto de relator-geral do Sínodo dos Bispos em Roma.

Em dezembro daquele ano Bergoglio viu como milhares de pessoas passavam marchando na frente da catedral para ir na direção da Casa Rosada protestar. Era o final do governo do presidente Fernando De la Rúa e o surgimento da maior crie econômica e social da História da Argentina. Na época – e em 2002 – Bergoglio foi crucial para evitar a fome de dezenas de milhares de pessoas ao criar uma rede de refeitórios populares para alimentar os empobrecidos argentinos.

Embora fosse o cardeal portenho, Bergoglio só começou a ser uma figura conhecida de forma nacional pelos argentinos quando a partir de 2003 manteve uma série de confrontos com o casal Néstor e Cristina Kirchner, que governaram a Argentina ao longo da última década. Sem papas na língua, o cardeal não vacilou em criticar a retomada do crescimento da pobreza, a corrupção, a divisão da sociedade e a falta de tolerância política.

PAPÁVEL - Em 2005 Bergoglio ficou mais conhecido quando passou a ser um dos papáveis da América Latina. Mas, na ocasião Bergoglio ficou em segundo lugar, com 40 votos, sendo superado por Joseph Ratzinger, que foi entronizado Bento XVI.

Bergoglio permanecia cotado como “papável” para um eventual novo conclave. Mas, em 2010 sofreu um duro revés político quando o Parlamento argentino aprovou um projeto de lei do Partido Socialista (mas respaldado pelo governo da peronista Cristina Kirchner) de casamento entre pessoas do mesmo sexo. Bergoglio, na véspera da votação, deixou de lado seu estilo sóbrio e, perdendo as estribeiras de uma forma ostensiva (o conservador jornal “La Nación” até criticou o ato do cardeal) desferiu um furioso sermão contra o projeto, que foi aprovado com ampla maioria. Muitos integrantes do clero acharam que esta derrota implicaria na perda de pontos como “papável” em um seguinte conclave.

PECULIARIDADES - Ao ser entronizado como o papa Francisco, Bergoglio, além de se transformar no primeiro latino-americano (e habitante de todas as Américas) a ocupar o trono de São Pedro, também quebrou a restrição – implícita – de que um jesuíta seja transformado em papa. Desde que foi criada, há quase cinco séculos, a Companhia de Jesus jamais havia conseguido que um representante seu chegasse a líder da Igreja Católica, principalmente pela oposição de outras congregações que temiam seu crescimento. É também o primeiro papa não-europeu desde Gregório III, nascido na Síria em 690 e santo padre entre 731 e 741.

É também o único papa da História declaradamente fanático do futebol o primeiro que admite dotes de dançarino em sua juventude (gostava de dançar tango), além de ser o primeiro que escreveu um livro em conjunto com um rabino (Abraham Skorka, com quem preparou “Sobre o Céu e a Terra”).
 

sábado, 3 de agosto de 2013

OS ATRIBUTOS DE DEUS, OS MÉDICOS CORRUPTOS E O PASTOR MALAFAIA

O discurso teológico dogmático da religião hebraica/cristã – não do Cristo filho de Maria, “o mais doce, o mais amoroso (…) que nos liberta da dominação dos sacerdotes e de toda idéia de culpa, punição, recompensa, juízo, morte e o que vem depois da morte; esse homem que trouxe a boa nova”, como mostrou Deleuze/Nietzsche – trata da superioridade de Deus em relação ao homem, fugaz mortal, onde mostra seus três atributos: Onisciência, Onipotência e Onipresença. São atributos por demais elevados para um simples mortal. Só Deus pode contê-los e praticá-los. Todavia, esses três atributos são as grandes cobiças dos desesperados mortais e servem de acordo com o usuário disangelista – o que carrega a má notícia –, para seus propósitos mais torpes revelando o quanto de sua insegurança, medo e insignificância.
É comum nesse mundo dos tristes mortais, alguns ditos homens e mulheres lançarem mão de dois desses atributos impulsionados pela fantasia e delírio sintomático de quererem se tomar por Deus. É comum encontrar em todos os territórios imóveis estas personagens se arvorando onipotentes e onipresentes. Mostrando-se superiores – quando não são – e dotados do dom da ubiquidade quando são reles indivíduos bem territorializados. Mas que querem ser confundidos com Deus em sua Onipotência e Onipresença.
O caso dos médicos corruptos apresentado pela TV do Sílvio Santos, SBT, que este Blog Intempestivo publicou ontem, onde, em reportagem, desfilam médicos assinando o ponto em um hospital, e logo depois partindo para outro sítio, exemplifica essa síndrome da onipresença. Médicos ocupam, no mesmo tempo, vários lugares diferentes. Um complexo de Deus irrefutável que nos leva a indagar, em que lugar real encontram-se esses médicos? Só há uma forma de responder e um momento. É quando eles recebem seus salários. São seus salários que comprovam suas presenças. São seus salários que, indubitavelmente, confirmam que esses médicos encontravam-se nos seus locais de labuta ( e que labuta). São seus salários, bons salários, que o colocam no topo da classe médi(ca)a, e os permitem na sociedade de consumo fazer uso deles. Mas, para aumentar seus desesperos, como diz o filósofo francês Deleuze, “alguns médicos ganham muito, mas não sabem gastar”.
E sabe por que não sabem gastar? Porque não conseguem atingir o mais importante atributo de Deus: a Onisciência. Esses médicos são sempre restritos de inteligência. Não sabem que o comprar no capitalismo é uma forma de repressão ao desejo. Sem onisciência, também carregam uma linguagem que é sempre a mesma de sua classe, sua família, e seu grupo. Nada além semioticamente. Suas inteligências restritas servem apenas para conservar os limitados conhecimentos. Ser onisciente é um ato inatingível para eles. Degenerados do instinto humano, por isso são corruptos, muitos deles são também prepotentes, arrogantes, imaginando ter atingido o maior grau de onipotência que faz com que os outros fiquem aos seus pés. Principalmente os mais desvalidos. Mas esses complexos de Deus não são somente ideais perseguidos por esses médicos. 

Outros profissionais também são acometidos da mesma anomalia. Um bom exemplo recente foi o oferecido pelo pastor Malafaia. O onipotente pastor, que se julga salvador das almas duas vezes, por se acreditar pastor e psicólogo, segundo informações soltas pelo mundo midiático, em sua nobreza-teológica-moral, pediu para que seus fiéis não denunciassem os pastores corruptos. Uma prova inconteste de corrupção sem qualquer possibilidade de salvação teológica. Ora, Malafaia, mostra uma conhecida estratégica de administrar os pecados. Não denunciando os pastores corruptos, os fiéis terão abatimentos em seus pecados e penas, e de quebra sua igreja fica fortalecida. Um juízo que bem pode ser tratado por Malafaia, mas que não tem efeito algum, visto que o pastor, por não ser dotado de onisciência, não pode entender que o ato de mentir praticado pelos fiéis não pode livrá-los do pecado que eles mesmos sabem que estão cometendo. E que nenhum Malafaia pode salvá-los do juízo de Deus.
Como diz o filósofo Sartre: ”Se eu minto para alguém, mesmo que esse alguém não saiba que é mentira, todavia eu sei que estou mentindo”. Ainda mais, em um país em que a palavra corrupção passou a ser a moeda mais valiosa para tornar suspeitos em não suspeitos e não suspeitos em suspeitos, de acordo com os interesses dos inimigos. Nunca dantes, na história do Brasil, se estereotipou uma palavra como se estereotipou a palavra corrupção. Hoje até corrupto usa essa palavra em seu próprio benefício. Como é o caso da TV Globo com sua fraude no fisco.
É claro que o Deus dos três atributos sabe que se trata de um quadro clínico clássico de megalomania, essa tentativa de reles mortais, por reflexos, pretenderem seus atributos. Por isso, Ele não dá a menor pelota. Ele sabe que esse quadro por si mesmo mostra a dor desses pobres e infelizes mortais que carregam servidão a insegurança, o medo e a insignificância. Até que os vermes venham por fim ao desespero de terem existido em dupla ilusão.

Fonte: www.afinsophia.com